Não, senhora! Eu sou o segurança!

Fim de um expediente que começou no voo das 08h00 de São Paulo a Belo Horizonte. Finalmente hora de relaxar e descansar. Ajusto o GPS para me indicar o melhor caminho de onde estava até o hotel. Que beleza, hein! Em 15 minutos chego ao meu destino. Tão diferente da cidade de São Paulo…

Ligo o carro, procuro uma rádio de notícias, engato a primeira e lá vamos nós. Alguns minutos depois, escuto: “Manifestação na Avenida Afonso Pena. Motoristas, evitem circular pelas redondezas”. Não deve ser comigo esse recado, pois está tudo fluindo… Nem chego a terminar a frase e percebo que há um bloqueio devido à manifestação. O problema maior é que o bloqueio fechava a entrada do hotel em que eu estava hospedada.

“Não vou me estressar! Não vou me estressar” – Repetia para mim, diversas vezes, para manter a calma.

Decidi ir a um shopping por ali. Quem sabe poderia jantar por lá, ou assistir a um filme em cartaz? Até o final da noite, a bagunça já deveria ter acabado. Só que o transito estava totalmente bloqueado. O coitado do GPS já não sabia mais se eu estava indo ou voltando, e a cada atualização me traçava um caminho diferente.

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Para complicar, a programação da rádio teve que ser interrompida para a transmissão do A voz do Brasil! Fala sério! Eu no meio de uma manifestação, sem saber para onde e como ir, tendo que escutar notícias que não me ajudariam em nada naquele momento.

Eu estava a 300m do hotel e não tinha como abandonar o carro e seguir a pé.

“Mas que frescura é essa, Claudia? Estacione o carro e vá a pé!” – Pensei.

Quando me tomo de coragem, escuto “BUUMMMM! BUBUUMMM!”. Ah! Era só o barulho das bombas de gás lacrimogênio! “TÁ! TÁ TÁ!” E de balas de borracha. Sim, amigos, eu estava vivendo um cenário de guerra! Manifestantes correndo da tropa de choque, fumacinhas de gás de efeito moral, barulhos de tiro, vidros estilhaçando… e eu lá! Decidi me agachar e fechar os olhos. E fiquei assim por uns minutos, até ouvir do GPS (sim, ele tava comigo o tempo todo!): “Siga em frente! Você chegou ao seu destino”.

Por um milagre, a barreira que me bloqueava tinha sumido. E o barulho estava se afastando. Engatei a primeira e segui os 300m que me faltavam. Ao chegar ao hotel, duas Vans me impediam de parar na frente. Ao avistar um funcionário, comecei a buzinar e a acenar para que ele viesse me socorrer. Mas o cidadão fingiu não me ver. Abaixei os vidros e comecei a gritar:

– Oi! Sou hóspede, você pode me ajudar? – Mas o cidadão, de longe, se recusava a sair do lugar.

Um senhor que assistia à cena se aproximou e disse:

– Senhora, você está sendo multada! – E apontou para um guardinha que se colocou na frente do meu carro para anotar a placa.

Irritadíssima, engatei a primeira (quantas vezes eu disse isso?) e tentei dar a volta no quarteirão. Liguei para o hotel pedindo ajuda.

– Senhora, onde você está? – Perguntou uma pessoa do outro lado da linha.

– Sei lá! Acabei de passar pela frente do hotel, mas agora não sei mais. – Disse, quase chorando.

– A Senhora está vendo uma igreja do seu lado esquerdo? – perguntou.

– Não estou vendo nada! Ah! Peraí. Isso à minha esquerda é uma igreja?

– Na verdade é uma capela. Vire à direita.

– Não dá! Tem a tropa de choque prendendo alguns manifestantes.

– Então, Senhora, volte para a frente do hotel. Vou pedir para um manobrista te aguardar. Qual o carro que a Senhora está?

Levei 30 minutos para dar a volta no quarteirão, e lá estava o manobrista, que gentilmente pediu que eu entrasse no hotel enquanto ele estacionava o carro, e disse que levaria a bagagem depois.

Mas não aguentei ao passar pelo porteiro arrogante e perguntei:

– O Senhor trabalha aqui?

– Não, senhora! Eu sou o segurança! – Respondeu com energética petulância.

Ao fazer o check-in, informei o ocorrido com o pessoal da recepção. Eles pediram desculpas e disseram que o tal “segurança” era, sim, funcionário do hotel e tinha a obrigação de ajudar. Prometeram pagar a multa, mas não me deram nenhum documento dessa garantia.

Por causa do porteiro (que se dizia segurança), tudo que o hotel me fornecia tinha algum defeito: o ar-condicionado era barulhento, o wi-fi era lento, a imagem da televisão não era boa, a pressão do chuveiro era baixa… Estava claro que o acontecimento da entrada havia “contaminado” minha avaliação dos demais serviços que o hotel oferecia. Isso tudo me faz concordar com o professor Alexandre Luzzi Las Casas, que diz, em seu livro Excelência em Atendimento ao Cliente: “Muitas vezes, a falha em alguma parte do sistema pode causar prejuízo na outra, e assim sucessivamente”.

 

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